POBREZA EM FEIRA DE SANTANA, QUANDO A FALTA DE OPORTUNIDADES VIRA UMA ROTINA
Feira de Santana é uma das maiores e mais importantes cidades da Bahia

POBREZA EM FEIRA DE SANTANA: QUANDO A FALTA DE OPORTUNIDADES VIRA UMA ROTINA
Uma reportagem especial de Josenilson Almeida — Jornalista | JN Notícias — Feira de Santana, Bahia, Brasil
Feira de Santana, agosto de 2026
Feira de Santana é uma das maiores e mais importantes cidades da Bahia. É polo comercial, industrial, educacional, de saúde e de serviços. Cresceu, tornou-se estratégica para o Nordeste e movimenta bilhões de reais todos os anos.
Mas existe uma Feira de Santana que muitas vezes não aparece nos discursos políticos, nos palanques ou nas campanhas eleitorais.
É a Feira de Santana de famílias que precisam escolher entre comprar comida, pagar uma conta ou comprar um medicamento.
É a cidade de trabalhadores que passam meses procurando emprego, de mães que sustentam sozinhas suas casas, de jovens que terminam a escola sem encontrar uma oportunidade e de pessoas que dependem de políticas públicas para sobreviver.
E os números ajudam a dimensionar esse problema.
Em fevereiro de 2026, 73.790 famílias de Feira de Santana receberam o Bolsa Família, segundo informação divulgada pela própria Prefeitura. Desse universo, 65.944 mulheres apareciam como responsáveis diretas pelo sustento de suas famílias.
Isso não significa que todas essas famílias estejam necessariamente em situação de extrema pobreza. Mas revela uma realidade que não pode ser ignorada: existe uma parcela expressiva da população que depende de políticas de transferência de renda para garantir condições mínimas de sobrevivência.
E há outro dado importante: somente em 2025, a Prefeitura registrou 77.440 atendimentos relacionados ao Cadastro Único, incluindo mais de 59 mil atualizações cadastrais e mais de 10 mil novos cadastros.
A POBREZA NÃO É APENAS FALTA DE DINHEIRO
Pobreza não pode ser analisada somente pelo valor que uma pessoa recebe por mês.
Ela aparece quando falta emprego.
Quando o trabalhador não consegue qualificação.
Quando uma criança abandona a escola para ajudar a família.
Quando uma mãe precisa escolher qual filho será atendido primeiro.
Quando o cidadão passa meses aguardando atendimento médico.
Quando uma comunidade permanece sem infraestrutura adequada.
Quando o jovem não encontra perspectiva e passa a enxergar o crime como uma alternativa.
Quando milhares de pessoas sobrevivem exclusivamente de benefícios sociais sem conseguir romper o ciclo da vulnerabilidade.
O problema, portanto, não é simplesmente colocar dinheiro na mão do cidadão.
É criar condições para que ele não precise depender eternamente desse dinheiro.
O NORDESTE AINDA CARREGA UMA DESIGUALDADE HISTÓRICA
Os números nacionais também demonstram a dimensão do problema.
Segundo o IBGE, o rendimento nominal mensal domiciliar per capita do Brasil chegou a R$ 2.316 em 2025.
No Nordeste, entretanto, o valor foi de R$ 1.484, muito abaixo da média nacional.
Essa diferença não pode ser explicada apenas por uma gestão municipal.
Ela envolve décadas de desigualdade regional, concentração econômica, deficiência de infraestrutura, educação, emprego, renda, investimentos públicos e oportunidades.
Por isso, quando discutimos pobreza em Feira de Santana, precisamos olhar para três níveis de responsabilidade pública: federal, estadual e municipal.
FEDERAL: O DINHEIRO EXISTE, MAS PRECISA CHEGAR À PONTA
O Governo Federal possui papel fundamental no combate à pobreza.
Bolsa Família, BPC, investimentos em saúde, educação, habitação, saneamento, infraestrutura, geração de emprego e transferência de recursos para estados e municípios são instrumentos essenciais.
Mas dinheiro público não pode ser tratado como favor político.
É obrigação constitucional do Estado.
E é justamente por isso que a sociedade precisa acompanhar para onde os recursos estão indo.
Um exemplo recente demonstra por que a fiscalização é indispensável.
A Operação Overclean, conduzida pela Polícia Federal, investigou suspeitas de corrupção, fraude em licitações, lavagem de dinheiro e desvio de recursos envolvendo contratos financiados com verbas públicas federais.
Em agosto de 2026, a Polícia Federal indiciou 25 pessoas no primeiro relatório da investigação. Segundo informações divulgadas pela imprensa, a investigação envolve contratos que movimentariam aproximadamente R$ 1,4 bilhão, incluindo suspeitas relacionadas a obras, limpeza urbana e direcionamento irregular de emendas parlamentares.
É fundamental fazer uma ressalva jornalística:
investigação, suspeita ou indiciamento não significam condenação.
Os envolvidos têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Mas o caso serve como um alerta nacional:
quando recursos públicos são desviados ou aplicados de maneira irregular, quem paga a conta é o cidadão.
E o cidadão pobre paga duas vezes.
Primeiro, através dos impostos.
Depois, pela ausência do serviço público que deveria ter recebido.
E QUANDO O DINHEIRO QUE DEVERIA VIRAR SERVIÇO NÃO PRODUZ RESULTADO?
É aqui que precisamos abandonar a discussão simplista de esquerda contra direita.
O problema é maior.
Não importa a sigla partidária.
Se existe corrupção, superfaturamento, fraude, desperdício, favorecimento ou má gestão, a consequência é a mesma:
menos dinheiro para quem precisa.
Uma escola que deixa de receber investimento.
Uma unidade de saúde que não consegue funcionar adequadamente.
Uma rua que permanece sem infraestrutura.
Uma família que continua sem moradia digna.
Um jovem que continua sem capacitação profissional.
Uma criança que permanece vulnerável.
Não é necessário que todo recurso seja literalmente "roubado" para que exista prejuízo à população.
Má gestão, desperdício, contratos ineficientes e prioridades equivocadas também custam caro ao cidadão.
E FEIRA DE SANTANA?
A própria documentação oficial do município demonstra que existe movimentação financeira significativa no orçamento municipal.
Relatório de gestão divulgado pela Prefeitura registra orçamento geral de aproximadamente R$ 2,567 bilhões em 2025 e informa que foram elaboradas 246 minutas de decretos de suplementação, totalizando aproximadamente R$ 788,27 milhões, equivalentes a 30,71% daquele orçamento geral. O documento também registra a preparação dos instrumentos orçamentários de 2026, incluindo LDO, PPA 2026–2029 e LOA 2026.
Isso, por si só, não significa irregularidade.
Suplementação orçamentária é instrumento legal de gestão pública e pode ser necessária para adequar o orçamento às necessidades reais da administração.
O problema jornalístico que precisa ser colocado é outro:
quanto dinheiro é destinado ao combate à pobreza, onde ele é aplicado, qual é o resultado e quem fiscaliza?
Essa pergunta precisa ser respondida com documentos, números e transparência.
O DINHEIRO ESTÁ SENDO DESVIADO EM FEIRA?
Aqui precisamos ser rigorosos.
Não é jornalismo responsável afirmar que determinado recurso destinado à população pobre de Feira de Santana está sendo desviado sem prova documental ou investigação oficial que demonstre isso.
Até o momento desta reportagem, não encontramos fonte oficial que permita afirmar que existe um esquema geral de desvio das verbas destinadas ao combate à pobreza especificamente em Feira de Santana.
O que existe são investigações de grande alcance envolvendo recursos públicos federais na Bahia, como a Operação Overclean, e diversas movimentações orçamentárias e contratuais que precisam permanecer sob fiscalização dos órgãos de controle e da sociedade.
Essa distinção é fundamental.
Denunciar corrupção é dever do jornalismo. Acusar alguém sem prova é irresponsabilidade.
MUNICÍPIO: A POBREZA APARECE NA PORTA DO CRAS
É no município que o cidadão sente diretamente os efeitos da pobreza.
É no CRAS.
Na unidade de saúde.
Na escola.
Na assistência social.
Na rua.
No transporte.
Na habitação.
No atendimento às pessoas em situação de rua.
E Feira de Santana possui uma rede de assistência social que vem realizando ações de atendimento.
Em 2026, por exemplo, a SEDESO informou ações de atendimento pelo CRAS, atualização do CadÚnico, assistência à população vulnerável e atividades destinadas a diferentes grupos sociais.
Também foi informado pela Prefeitura que 120.037 beneficiários deveriam realizar acompanhamento de saúde na segunda vigência de 2026, dentro das condicionalidades relacionadas ao Bolsa Família.
Essas ações são importantes.
Mas assistência social não pode ser confundida com solução definitiva da pobreza.
O PERIGO DA POLÍTICA DO "POBRE DEPENDENTE"
Existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita:
por que, depois de tantos anos de programas sociais, ainda existem famílias que permanecem presas à vulnerabilidade?
A resposta não está em acabar com os programas sociais.
Ao contrário.
Programas de transferência de renda são fundamentais para proteger famílias vulneráveis.
A questão é:
o benefício precisa ser acompanhado de uma porta de saída.
Essa porta pode ser:
- qualificação profissional;
- educação de qualidade;
- creches;
- ensino técnico;
- acesso ao crédito responsável;
- apoio ao pequeno empreendedor;
- incentivo à economia local;
- atração de empresas;
- infraestrutura;
- saneamento;
- habitação;
- saúde;
- inclusão digital;
- primeiro emprego;
- capacitação para mulheres;
- políticas para jovens;
- agricultura familiar;
- fortalecimento do comércio e dos pequenos negócios.
Uma família não deveria passar décadas recebendo assistência sem receber também oportunidades reais de autonomia econômica.
POR QUE A POBREZA INTERESSA POLITICAMENTE?
Essa talvez seja a pergunta mais desconfortável desta reportagem.
Existe algum interesse político em manter uma população dependente?
Não se pode afirmar que todos os políticos pensem dessa maneira.
Seria injusto e sem fundamento.
Mas existe um fenômeno conhecido na política brasileira: a utilização eleitoral da vulnerabilidade social.
O cidadão que depende de determinado benefício, favor, emprego temporário ou atendimento político pode tornar-se mais suscetível ao discurso de quem promete manter aquele benefício.
É nesse momento que política pública pode ser transformada em instrumento de dependência eleitoral.
E isso é extremamente perigoso para a democracia.
Direito não é favor.
Bolsa Família não é favor de deputado.
BPC não é favor de prefeito.
Atendimento médico não é favor de vereador.
Educação pública não é favor de governador.
É direito do cidadão.
O PROBLEMA NÃO É O BENEFÍCIO. É A DEPENDÊNCIA SEM TRANSFORMAÇÃO
Um país sério precisa proteger quem está passando fome.
Uma cidade séria precisa cuidar de quem está vulnerável.
Mas um governo eficiente precisa perguntar:
como transformar assistência em oportunidade?
Se uma mãe recebe auxílio hoje, o Estado deveria trabalhar para que amanhã ela tenha qualificação, emprego ou empreendimento capaz de aumentar sua renda.
Se um jovem está fora do mercado de trabalho, não basta oferecer discurso.
É preciso criar capacitação e conexão com empresas.
Se uma região é pobre, não basta construir uma praça.
É preciso levar infraestrutura, internet, transporte, escolas, saúde, saneamento e atividade econômica.
O QUE PODERIA SER FEITO EM FEIRA DE SANTANA?
Feira de Santana possui uma vantagem extraordinária: sua localização estratégica.
A cidade é um dos principais entroncamentos rodoviários do Nordeste e possui forte atividade comercial e de serviços.
Essa característica poderia ser utilizada para uma política agressiva de desenvolvimento econômico.
1. Criar um grande programa municipal de qualificação profissional
Mapear as profissões que realmente estão sendo procuradas pelas empresas e oferecer cursos gratuitos diretamente relacionados às vagas existentes.
2. Atrair empresas com responsabilidade
Incentivos fiscais precisam estar associados a metas claras de geração de empregos, qualificação e contratação de moradores locais.
3. Criar uma política permanente para o primeiro emprego
Milhares de jovens terminam a escola sem experiência profissional.
Município, Estado, União e setor privado poderiam criar programas integrados de aprendizagem e primeiro emprego.
4. Fortalecer o pequeno empreendedor
O pequeno negócio é uma das principais portas de saída da pobreza.
É necessário facilitar formalização, crédito, capacitação, marketing, tecnologia e acesso a mercados.
5. Investir na mulher responsável pelo domicílio
Os dados municipais mostram a dimensão da participação feminina entre as famílias beneficiárias do Bolsa Família.
Isso deveria orientar políticas de qualificação, empreendedorismo, creches e emprego para mulheres.
6. Transparência em tempo real
O cidadão precisa conseguir acompanhar:
quanto entrou → quanto foi empenhado → quanto foi pago → para quem foi pago → qual serviço foi entregue → qual foi o resultado.
7. Fiscalização independente
Câmara Municipal, Tribunal de Contas, Ministério Público, Controladoria, imprensa e sociedade civil precisam acompanhar os contratos.
8. Orçamento participativo
O cidadão deveria ter maior participação na definição das prioridades dos bairros e distritos.
9. Combater o desperdício
Cada real desperdiçado é um real que deixa de financiar uma política pública.
10. Avaliar resultados
Não basta anunciar milhões de reais.
É preciso perguntar:
quantas pessoas saíram da pobreza?
quantos empregos foram criados?
quantos jovens foram qualificados?
quantas famílias conquistaram autonomia financeira?
quanto custou cada resultado?
O ELEITOR TEM UMA ARMA: O VOTO
E chegamos ao ponto central desta reportagem.
2026 é ano eleitoral.
O primeiro turno das eleições está marcado para 4 de outubro de 2026, das 8h às 17h, segundo o calendário oficial do Tribunal Superior Eleitoral.
O eleitor não deve votar simplesmente porque recebeu uma promessa.
Não deve votar porque ganhou um favor.
Não deve votar porque alguém apareceu no bairro na época da eleição.
Não deve votar simplesmente pela cor de uma bandeira partidária.
O eleitor precisa perguntar:
O que esse candidato fez?
Quanto custou?
Qual resultado entregou?
De onde veio o dinheiro?
Quais são suas propostas para gerar emprego?
Como pretende combater a pobreza?
Como pretende melhorar a saúde?
Como pretende melhorar a educação?
Quem financia sua campanha?
Quais são seus aliados?
Quais interesses econômicos estão próximos dele?
E, principalmente:
onde estão os resultados?
NÃO VENDA SEU VOTO POR UM FAVOR
Uma cesta básica pode alimentar uma família por alguns dias.
Uma promessa pode durar quatro anos.
Mas uma política pública eficiente pode transformar uma geração inteira.
O eleitor precisa entender que seu voto vale muito mais do que um benefício momentâneo.
Vale uma escola.
Vale um hospital funcionando.
Vale emprego.
Vale saneamento.
Vale segurança.
Vale transporte.
Vale dignidade.
Vale futuro.
A RESPONSABILIDADE É DE QUEM?
A resposta correta é:
a responsabilidade é compartilhada.
Governo Federal.
Governo Estadual.
Prefeitura.
Câmara Municipal.
Assembleia Legislativa.
Congresso Nacional.
Poder Judiciário e órgãos de controle, dentro de suas respectivas competências.
Empresários.
Sociedade civil.
E também nós, eleitores.
Porque democracia não termina no momento em que depositamos o voto na urna.
Democracia começa quando o cidadão decide fiscalizar quem recebeu o seu voto.
FEIRA NÃO PRECISA DE MAIS PROMESSAS. PRECISA DE RESULTADOS.
A pobreza não desaparece com discurso.
Não desaparece com propaganda.
Não desaparece com fotografia de político entregando benefício.
E também não desaparece simplesmente aumentando programas assistenciais.
A pobreza começa a diminuir quando uma criança recebe educação de qualidade, quando o jovem encontra uma oportunidade, quando o trabalhador consegue emprego digno, quando a pequena empresa consegue crescer e quando o dinheiro público é utilizado com eficiência.
Feira de Santana tem população, mercado consumidor, localização estratégica, universidades, empresas, comércio e potencial econômico.
O desafio é transformar esse potencial em renda, emprego e dignidade para quem mais precisa.
E isso exige governos competentes, fiscalização rigorosa e uma população consciente.
UMA MENSAGEM AO ELEITOR FEIRENSE
Em outubro, antes de votar, não pergunte apenas:
"Quem está prometendo mais?"
Pergunte:
"Quem tem capacidade, histórico, preparo, integridade e projeto para entregar mais?"
Não vote por amizade.
Não vote por pressão.
Não vote por favor.
Não vote porque alguém lhe deu alguma coisa.
Vote pelo futuro.
Fiscalize.
Pesquise.
Compare.
Questione.
Leia.
E cobre.
Porque depois que a urna fecha, quem continuará morando na cidade, enfrentando os problemas e pagando os impostos será você.
O político volta para o gabinete.
O cidadão continua na rua.
E a pobreza não escolhe partido.
NOTA DE RESPONSABILIDADE JORNALÍSTICA
Esta reportagem distingue fatos comprovados, dados oficiais, investigações e análises jornalísticas. A existência de investigação ou indiciamento não significa condenação. Não foram encontrados, nas fontes consultadas para esta matéria, elementos suficientes para afirmar que recursos destinados ao combate à pobreza em Feira de Santana estejam sendo desviados por autoridades municipais específicas.
As movimentações orçamentárias e contratos públicos mencionados devem ser analisados individualmente pelos órgãos competentes e pela sociedade, com acesso aos processos, empenhos, liquidações, pagamentos, contratos, aditivos e resultados efetivamente entregues.
JN NOTÍCIAS — Feira de Santana, Bahia — Brasil
Josenilson Almeida
Jornalista — JN Notícias
